sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Feliz ano novo


Era tudo tão óbvio e claro agora. E como não pudera perceber tal “letreiro em neon” antes? Preferiu engolir seco, seu vinho branco suave, não queria mais ficar pensando nessas bobagens da vida de “porque não fiz isso?” ou “porque fiz aquilo”... Fazer-não fazer, não importa mais – já faz tempo. E o tempo apagou, dilacerou, fez gato e sapato com a sua vida que andava a mil maravilhas. Mais um dia daqueles, que tinha uma rotina bem peculiar de acordar bem-humorada, ir comprar o pão na padaria ao lado, ir ao salão, colocar seu perfume francês, olhar para o presente que houvera adquirido para o seu querido e dizer: hoje será um bom dia! Interessante como os conceitos sobre o que é bom ou não mudam com o velho e desgraçado tempo. Que hoje em dia, eu particularmente devo tanto. Continuadamente, os dias passaram, e passam, fazendo com que essa rotina se repita, essa coisa de “precisar urgentemente de amor” insista, de “Me ame” no anúncio de jornal, aconteça todos os dias - isso tudo é idéia furada. Mas como vinha dizer, seu conceito de bom era puro e simples, era esse, amar e ser bem amada, com o seu perfume francês, à beira-mar vendo os fogos de artifício bem acompanhada, e desejando que nada daquilo tudo mudasse. Quis que o tempo parasse. Venhamos e convenhamos, precisamos hoje dia em dia, como uma alma faminta tem sede de paixão, ou como um desolado precisa de amor, perceber que o que mais queremos, talvez seja o que mais nos afeta. Tranquilidade na rotina não deveria existir. Tranquilidade sim, mas rotina definitivamente não. Ela que achava ser feliz com o cara charmoso que tocava no barzinho badalado da vila São Paulo, que tinha um ar de Gael Garcia Bernal e a fazia sentir a própria Penélope Cruz, se tornou esse o maior tormento da sua vida. A rotina do dilema de continuar sendo amada ou não, de ser completa, sendo partida ao meio, sendo “dele”, como costumava repetir na noites em que passavam juntos. Estava ela lá, intocável em sua plenitude de felicidade, passando ano a ano, desejando que a velha e cômoda sorte, se reciclasse como seus artigos de auto-ajuda que lia semanalmente. Depois de ver o seu Gael numa posição – digamos exagerando já um eufemismo – bem agradável, com a vizinha, sua ex-melhor amiga, sua história de “ser completada por ele”, a levou à pensar num suicídio por gás de cozinha, talvez. Pra aqueles que querem parar o tempo, agora ela dá o belo conselho de acelerá-lo, vivendo-o. Nada de amores por quem se mata e morre. “Morra de amores por você mesmo”, ela diz enquanto desce no elevador, para ir comprar o pão na padaria ao lado. Dizem agora, por aí, em seu novo edifício, que depois do acontecido, o tal sósia do Gael lhe implorou para que voltasse - o que não aconteceu, de fato. Que ela andou fazendo mais compras do que o normal, já que seu emprego lhe garante um cartão platina, e um belo carro.E que, além disso, nesse ano novo, foi ao salão, como de costume, colocou seu perfume francês, e comprou um presente para si mesma junto com seu cliquot, para assistir, sozinha, ao show de fogos de artifício na praia da baixada. Passou a ouvir mais blues e MPB do que antes, e anda distribuindo sorrisos e olhares mais calorosos por onde passa. E ainda vem gente me dizer que “aquilo merecia ser parado no tempo”. Bobagem! Apesar de serem apenas rumores, acredito plenamente nessa nova atitude, nesse novo ser que nos agrega todos os – novos - dias, nessa vontade de fazer da vida, uma folha a limpo. Já fiz isso inclusive, no ano que se passou. Hoje desejo um ano novo, completamente novo, para todos que passam e riem de mim, por estar com meu chapangue debaixo do braço, os pés molhados da água do mar caminhando na areia da praia cantarolando uma música qualquer que diz “eu não sou nenhuma santa”.


Beatriz Marques

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Para amar alguém, suspiro.

É o jeito de apertar os olhos quando está cara a cara, ofegar a respiração devagar, e olhar de cima a baixo que me fazia alucinar. Não precisava de nenhum pré-requisito, só isso já era o bastante pra me deixava sem ar

Beatriz Marques

Histórias de des(amor)

E em pleno sábado de aleluia, ela só dizia que era pura monotonia que não fazia sentido algum naquilo tudo que não sentia Só precisava de café, literatura e poesia
Além do mais, eram tantos homens pra tão poucas atitudes de verdade que cansava sua beleza e a deixavam com falta de vontade.

Beatriz Marques

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Indiazinha


É indiazinha, eu te falei
leva o teu barco
rema pelo rio à esquerda da margem
e forte pra não se perder.

E disse ainda mais, indiazinha,
leva esse sol contigo,
para todo dia de chuva
você não esmorecer.

Se fizer muito vento indiazinha,
não esqueces que é só contra ele correr,
vai sentir teus cabelos lisos planarem, indiazinha,
e na tua pele morena meu beijo padecer.

Se faltar abrigo de palha, indiazinha,
não esquece que meu coração esquenta você.
Porque nosso amor é forte, indiazinha,
e o que é forte não costuma morrer.

Beatriz Marques
[momento nostalgico sobre a história da indiazinha que minha mãe contava pra eu ir dormir. Hoje ela diz que a indiazinha sempre fui eu]

domingo, 7 de dezembro de 2008

Trilhos d'um trem.

E ela desceu do trem tão lentamente, e o vento esvoaçava seus cabelos fazendo com que a cena fosse passada em câmera lenta. Um filme mudo, talvez, foi o que eu pensei no exato momento. Quase uma característica atriz famosa inglesa, parisiense ou algo assim, que eu não conseguia decifrar – que não se consegue de fato. Pousou seus olhos nos meus estabanados e sorriu. Eu lembrei como tinha sido diferentemente estranho a última vez naquela estação, numa tarde chuvosa de inverno, que meu deus, me dava calafrios. Não pela chuva, mas pelas lágrimas que desciam sem parar pelo seu rosto em plena despedida. Era muita dor em uma pessoa só, o que me levava a pensar o quanto uma emoção atinge a alma de uma pessoa. Bem, a resposta estava bem na minha frente. Estava ela lá, parada sorrindo para mim novamente, como da primeira vez que nos conhecemos. Minto. Não exatamente como da primeira vez. Dessa, ela tinha um turbilhão de primaveras que resplandeciam em seu rosto, seus gestos, cabelos e sorrisos. Chegava a ser extasiaste a forma como me encarou, porque passou a me olhar encarando. Eu passei a ser um passado bem próximo. Pôs as malas no chão, pegou em minhas mãos e disse que por mais lugares que fosse com tantas outras pessoas estivera e com tantos dias passados por tais trilhos, ela descobriu que não caberia tanta vida apenas nisso. Que procurou em tantos lugares o que lhe faltava. Mas, nada. O que lhe faltava estava dentro, em você. Agora senti, essas palavras doces que soaram nos meus ouvidos, quem me falava era uma verdadeira mulher, que tinha a vida amarga, aprisionada e descobriu que o doce era voar.


Beatriz Marques

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

dentro de mim

Fui me juntando, me recolhendo a mim mesma. Por um segundo, em toda minha vida comecei a pensar para dentro, e agir também. Comecei a querer fazer da minha vida como se engolisse um grande algodão branco, criando um vazio interno enorme. Era meus anti-decepções, anti-emoções, pois comecei a fugir de tudo que se relacionasse à minha ilusão de felicidade. Nem sei, mas fiquei na verdade insensível à tantas coisas, com receio de sorrir, de sentir, coisa que nunca me houvera ocorrido antes. E preferi assim, uma “prevenção irremediável”. Liguei a Tv e vi Jimi Hendrix falando: “Eu procurei um lugar no mundo, e encontrei dentro de mim mesmo”. Pra variar aquele homem tão revolucionário me fez pensar - não como a gente pensa todo dia, cálculos, ligações, compras, o dia está bonito, em pessoas e enfins – mas pensar numa coisa que vai bem mais do que nossa compreensão. O bom disso tudo, é que dentro de mim, não estou sozinha, eu, minh’alma. Cultivei com o tempo, coisas que são imensuráveis em sua existência. E que agradeço a Deus de ainda estarem por lá. Dentro de mim – onde eu preferi estar - além do meu eu interior, está meu amor por vocês. Por mais que hoje em dia, eu temo em demonstrar.

Beatriz Marques