
Era tudo tão óbvio e claro agora. E como não pudera perceber tal “letreiro em neon” antes? Preferiu engolir seco, seu vinho branco suave, não queria mais ficar pensando nessas bobagens da vida de “porque não fiz isso?” ou “porque fiz aquilo”... Fazer-não fazer, não importa mais – já faz tempo. E o tempo apagou, dilacerou, fez gato e sapato com a sua vida que andava a mil maravilhas. Mais um dia daqueles, que tinha uma rotina bem peculiar de acordar bem-humorada, ir comprar o pão na padaria ao lado, ir ao salão, colocar seu perfume francês, olhar para o presente que houvera adquirido para o seu querido e dizer: hoje será um bom dia! Interessante como os conceitos sobre o que é bom ou não mudam com o velho e desgraçado tempo. Que hoje em dia, eu particularmente devo tanto. Continuadamente, os dias passaram, e passam, fazendo com que essa rotina se repita, essa coisa de “precisar urgentemente de amor” insista, de “Me ame” no anúncio de jornal, aconteça todos os dias - isso tudo é idéia furada. Mas como vinha dizer, seu conceito de bom era puro e simples, era esse, amar e ser bem amada, com o seu perfume francês, à beira-mar vendo os fogos de artifício bem acompanhada, e desejando que nada daquilo tudo mudasse. Quis que o tempo parasse. Venhamos e convenhamos, precisamos hoje dia em dia, como uma alma faminta tem sede de paixão, ou como um desolado precisa de amor, perceber que o que mais queremos, talvez seja o que mais nos afeta. Tranquilidade na rotina não deveria existir. Tranquilidade sim, mas rotina definitivamente não. Ela que achava ser feliz com o cara charmoso que tocava no barzinho badalado da vila São Paulo, que tinha um ar de Gael Garcia Bernal e a fazia sentir a própria Penélope Cruz, se tornou esse o maior tormento da sua vida. A rotina do dilema de continuar sendo amada ou não, de ser completa, sendo partida ao meio, sendo “dele”, como costumava repetir na noites em que passavam juntos. Estava ela lá, intocável em sua plenitude de felicidade, passando ano a ano, desejando que a velha e cômoda sorte, se reciclasse como seus artigos de auto-ajuda que lia semanalmente. Depois de ver o seu Gael numa posição – digamos exagerando já um eufemismo – bem agradável, com a vizinha, sua ex-melhor amiga, sua história de “ser completada por ele”, a levou à pensar num suicídio por gás de cozinha, talvez. Pra aqueles que querem parar o tempo, agora ela dá o belo conselho de acelerá-lo, vivendo-o. Nada de amores por quem se mata e morre. “Morra de amores por você mesmo”, ela diz enquanto desce no elevador, para ir comprar o pão na padaria ao lado. Dizem agora, por aí, em seu novo edifício, que depois do acontecido, o tal sósia do Gael lhe implorou para que voltasse - o que não aconteceu, de fato. Que ela andou fazendo mais compras do que o normal, já que seu emprego lhe garante um cartão platina, e um belo carro.E que, além disso, nesse ano novo, foi ao salão, como de costume, colocou seu perfume francês, e comprou um presente para si mesma junto com seu cliquot, para assistir, sozinha, ao show de fogos de artifício na praia da baixada. Passou a ouvir mais blues e MPB do que antes, e anda distribuindo sorrisos e olhares mais calorosos por onde passa. E ainda vem gente me dizer que “aquilo merecia ser parado no tempo”. Bobagem! Apesar de serem apenas rumores, acredito plenamente nessa nova atitude, nesse novo ser que nos agrega todos os – novos - dias, nessa vontade de fazer da vida, uma folha a limpo. Já fiz isso inclusive, no ano que se passou. Hoje desejo um ano novo, completamente novo, para todos que passam e riem de mim, por estar com meu chapangue debaixo do braço, os pés molhados da água do mar caminhando na areia da praia cantarolando uma música qualquer que diz “eu não sou nenhuma santa”.
Beatriz Marques
Beatriz Marques
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