domingo, 31 de agosto de 2008

Minha lembrança, um camafeu

Ela foi embora. E entre soluços trôpegos e lágrimas que escorriam pelo camafeu que me dera antes de ir, eu não me conformava em meio da multidão na estação de trem. Lembro bem desse dia, ela chegou com aquele brilho dourado nas mãos colocando nas minhas e apertando contra o peito, repetindo sempre a mesma frase “guarda-me contigo pra sempre?”. Guardei... Guardei o cheiro do café que ela deixou pronto antes de sair, guardei seu cinzeiro na varanda, os seus discos antigos, o seu sorriso de Bom dia, guardei-a sim comigo.
Queria que agora ao chegar em casa, a visse na sala, me esperando com a mesma pergunta, como de praxe “comprou os cartões? Deixei o vinho na geladeira e passei a sua pólo branca”, e nos divertíamos noite a dentro acabando sempre com a minha satisfação em vê-la dormir sorrindo em meus braços.
E quantas vezes não desejei ser menos orgulhoso, e deixar ao menos ceder-me um pouco mais aos seus discursos melodramáticos que só evidenciavam ainda mais os seus sentimentos por mim. Mais uma lágrima. Um arrependimento. Pensei, enquanto relembrava meus dedos passando por entre seus cachos em curvas perfeitas o quanto eu poderia fazê-la feliz – o quanto eu queria isso, esse ápice de amor&paixão que pairava sobre nós – e pronto, acabou. Não posso mais pegar um trem, um avião, ou nadar atravessando um oceano inteiro para vê-la, isso vai além das limitações humanas. Ela se foi sem deixar recado na secretária eletrônica, ou minha pólo branca passada... Se foi e só deixou saudade. Saudade da sensação que eu tinha ao abraçá-la forte, sensação que não fazia nem calor nem frio, fazia amor, só isso. Guardei o aroma dos lírios brancos que ela adorava, em frente ao tumulo em que fora colocada. Guardei-a comigo.


Beatriz Marques

Contemplar

Contemplar. Era a palavra que há muito eu procurava para tentar descrever o meu estado de transe, minha babaquice espontânea, meus relances que se confrontavam no meu “eu” interior. Ah, não existiam consciente, subconsciente, razão ou coisas lógicas e práticas assim... Era só sentindo. Até um pouco animalesco, confesso, mas com um ar angelical, com inocência do mesmo. Minha retina seguia em rápidos movimentos: pés, pernas, pêlos, brincos, cigarros, sorrisos, cabelos. Iam e voltavam numa velocidade, que se não, minha mente não acreditava no que estava ali. Precisava ver muito para crer. Embalados em meio de dedilhados, e hoje, nostálgicos flashes de um feliz tempo, meus pensamentos se perdem no meu desejo idiota de regredir, e permanecer num dia, que julgo merecer eternidade. Lembro bem da música, dos corpos em perfeita harmonia e cheiro... E desculpe, nesse êxtase de emoções, continuei a contemplar.

Beatriz Marques

domingo, 3 de agosto de 2008

num café

Fazia, como todos os últimos dias do inverno, aquela chuvinha fina, chata, que nos molha sem o mínimo da nossa percepção e nos obriga a sair de casa levando um bom casaco. Fazia aquele vento frio, e uma claridade bem característica do tempo nublado, em frente ao café em que eu estava. Eu e mais um milhão de pessoas que passavam apressadas na rua... que me davam vontade de tomar meu capuccino cada vez mais devagar e só observá-las. E sugava o fumo do meu cigarro, apertando os olhos para duas pessoas que sentadas à minha frente, se confrontavam sem parar. Ela chorava compulsivamente, como se não conseguisse conter a vergonha do choro, nem seus soluços repetidos e involuntários. Já ele, não. Estava desconfortado com a situação e várias vezes olhou para os lados, para as pessoas ao seu redor, inclusive para mim. Se levantou rapidamente, fugindo daquele desconfortável momento em que a moça o pusera, como se todos tivessem engolindo-o com os olhares (o que não aconteceu, porque estavam no local todos muito intertidos nos seus diálogos pertinentes) . Ela correu na direção dele, na direção de um carro que vinha em alta velocidade pela avenida em frente ao café. Pronto! Em menos de 2 segundos tinha inúmeros curiosos em volta da tragédia. Ele olhou para o chão, e fez um feição até um pouco difícil de decifrar, como se sentisse uma certa sensação de alívio e voltou a fitar-me, a única pessoa que o observara, ainda no café, ouvindo um bom "blues", num dia frio, com meus cigarros e capuccino, abismada com o "espetáculo da vida humana". Ele foi embora, como se não viera a acontecer nada... Sem sequer olhar para trás.


Beatriz Marques