Ela foi embora. E entre soluços trôpegos e lágrimas que escorriam pelo camafeu que me dera antes de ir, eu não me conformava em meio da multidão na estação de trem. Lembro bem desse dia, ela chegou com aquele brilho dourado nas mãos colocando nas minhas e apertando contra o peito, repetindo sempre a mesma frase “guarda-me contigo pra sempre?”. Guardei... Guardei o cheiro do café que ela deixou pronto antes de sair, guardei seu cinzeiro na varanda, os seus discos antigos, o seu sorriso de Bom dia, guardei-a sim comigo.
Queria que agora ao chegar em casa, a visse na sala, me esperando com a mesma pergunta, como de praxe “comprou os cartões? Deixei o vinho na geladeira e passei a sua pólo branca”, e nos divertíamos noite a dentro acabando sempre com a minha satisfação em vê-la dormir sorrindo em meus braços.
E quantas vezes não desejei ser menos orgulhoso, e deixar ao menos ceder-me um pouco mais aos seus discursos melodramáticos que só evidenciavam ainda mais os seus sentimentos por mim. Mais uma lágrima. Um arrependimento. Pensei, enquanto relembrava meus dedos passando por entre seus cachos em curvas perfeitas o quanto eu poderia fazê-la feliz – o quanto eu queria isso, esse ápice de amor&paixão que pairava sobre nós – e pronto, acabou. Não posso mais pegar um trem, um avião, ou nadar atravessando um oceano inteiro para vê-la, isso vai além das limitações humanas. Ela se foi sem deixar recado na secretária eletrônica, ou minha pólo branca passada... Se foi e só deixou saudade. Saudade da sensação que eu tinha ao abraçá-la forte, sensação que não fazia nem calor nem frio, fazia amor, só isso. Guardei o aroma dos lírios brancos que ela adorava, em frente ao tumulo em que fora colocada. Guardei-a comigo.
Beatriz Marques
domingo, 31 de agosto de 2008
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