Fazia, como todos os últimos dias do inverno, aquela chuvinha fina, chata, que nos molha sem o mínimo da nossa percepção e nos obriga a sair de casa levando um bom casaco. Fazia aquele vento frio, e uma claridade bem característica do tempo nublado, em frente ao café em que eu estava. Eu e mais um milhão de pessoas que passavam apressadas na rua... que me davam vontade de tomar meu capuccino cada vez mais devagar e só observá-las. E sugava o fumo do meu cigarro, apertando os olhos para duas pessoas que sentadas à minha frente, se confrontavam sem parar. Ela chorava compulsivamente, como se não conseguisse conter a vergonha do choro, nem seus soluços repetidos e involuntários. Já ele, não. Estava desconfortado com a situação e várias vezes olhou para os lados, para as pessoas ao seu redor, inclusive para mim. Se levantou rapidamente, fugindo daquele desconfortável momento em que a moça o pusera, como se todos tivessem engolindo-o com os olhares (o que não aconteceu, porque estavam no local todos muito intertidos nos seus diálogos pertinentes) . Ela correu na direção dele, na direção de um carro que vinha em alta velocidade pela avenida em frente ao café. Pronto! Em menos de 2 segundos tinha inúmeros curiosos em volta da tragédia. Ele olhou para o chão, e fez um feição até um pouco difícil de decifrar, como se sentisse uma certa sensação de alívio e voltou a fitar-me, a única pessoa que o observara, ainda no café, ouvindo um bom "blues", num dia frio, com meus cigarros e capuccino, abismada com o "espetáculo da vida humana". Ele foi embora, como se não viera a acontecer nada... Sem sequer olhar para trás.
Beatriz Marques
domingo, 3 de agosto de 2008
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